- Se for mentir, minta direito
Ainda me lembro, vividamente, das minhas pândegas de adolescência. Numa delas, estava eu, com um grande amigo, chamado Leandro Franco, vulgo Leando Barui. Jovem, de porte médio, bem apessoado, vaidoso, de bom gosto, conhecido no meio do nosso grupo, pela malandragem e por sua capacidade infinita de se relacionar nos mais variados ambientes e nas mais variadas classes sociais.
Embuído destas qualidades camaleônicas, eis que um dia, o Leandro me convidou para ir a um Pub que recém inaugurara em Goiânia, domicílio e palco das mais diversas situações inusitadas.
Pois bem, éramos jovens, gozando da nossa absoluta falta de responsabilidade, como todo jovem, sem grana e como um vulcão na mais atômica erupção.
Decidimos ir então ao tal bar, com a cara e a coragem habituais, munidos apenas de informações gerais (afinal de contas tínhamos de ter algo a dizer para que pudéssemos impressionar pelo conteúdo, já que pela capacidade financeira era absurdamente prejudicada) e coragem.
O Leandrão, como sempre foi, desde quando eu o conheci, gostava de se passar por membros da alta sociedade, já que sempre fora de classe inferior e de “pouca leitura” (essa parte explico mais adiante)
Munido de bom gosto, conhecendo bons perfumes, lugares, bebidas e lugares exóticos, todos aqueles que impressionam os vazios, frutos de linhagem privilegiada, adorava se passar por outrem, dada a sua capacidade fenomenal de conhecer (e de ouvir) certos assuntos. Decidiu neste dia se passar por acadêmico de medicina, logo ele que tinha a 7ª série do ensino médio.
Neste diapasão, eis que estou no meio daquela festa toda, percebo uma garota falando comigo por meio de sinais (na verdade movimentando os lábios) dizendo qualquer coisa, da qual eu mesmo deduzi naquele momento.
Quando de repente ela me indaga: “VOCÊ TAMBÉM FAZ MEDICINA?”, numa fração de segundos, fui contaminado pela minha capacidade cognitiva (leia-se, “a lógica do amigo que conhece o amigo em todos os sentidos”), respondi, meio sem jeito, que sim.
Ela se aproximou de forma bem amistosa, como quem, finalmente, encontra alguém que falasse a mesma língua, e pôs-se a contar a sua vida.
Diante de tal estapafúrdia situação, optei por manter aquele nível de relacionamento, pensando no que o Leandrão estaria aprontando. Afinal de contas, amigo é pra essas porras.
De repente, me chega o Leandrão com uma jovem vistosa que acabara de conhecer , num clima romântico e íntimo, no mesmo estilo “carnaval da Bahia”, e se misturam com a gente.
No meio dessa nova amizade surge indagações, daquelas inevitáveis, quais se fazem quando se conhece alguém, do tipo: Fiquei sabendo que você (pra mim primeiro) também faz medicina, eu, imediatamente, ratificando o que meu raciocínio lógico deduzira preteritamente, respondi, sim, você também?
Ela, logo em seguida, onde cursa?
Respondi, em Belém na UFPA, e você?
Eu faço aqui mesmo em Goiânia na Federal.
No mesmo tempo, ela pergunta, o que está fazendo aqui em maio?
Disse, a minha universidade está de greve, igual a sua.
E ela, é mesmo!! Rindo meio sem graça.
Que ano você está?
Eu estou no último ano ( o quinto ano, pois no sexto ocorre estágio obrigatório, que neste curso chamam de internato).
E ela, nossa!! Já fez e sua monografia?
Respondi, estou finalizando.
Ela – Sobre o quê?
Disse prontamente, sobre a síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser.
Pois bem, vocês devem estar se perguntando, como eu saberia daquilo tudo com tanta proficiência. Digo-lhes.
Sou caçula de três filhos, qual a mais velha (somos dois homens e uma mulher) era, àquele tempo, acadêmica de medicina naquela instituição de ensino mencionada anteriormente (UFPA), e, por incrível que pareça, estava fazendo a tal monografia no mesmo momento.
Como ela não tinha muita habilidade em informática e digitação, demais desíginios, eu estava digitando a tal fadada tese de final de curso, motivo pelo qual estava tão familiarizado com tais termos técnicos.
O Leandrão, quando sabatinado pelas mesmas indagações, imediatamente, respondeu, com aquela cara de “vixe, e agora?”, respondeu, de pronto: EU FAÇO MEDICINA EM COCHABAMBA, NA BOLÍVIA”!
Por isso que digo e afirmo, se for mentir, minta direito, pois o mundo não está mais tão cheio de imbecis como antes.
Luciano Maia
sábado, 15 de setembro de 2012
SE FOR MENTIR, MINTA DIREITO
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